FÉ CRISTÃ E DEMONOLOGIA

21 de Julho de 2018 Não Por Pe Leo Orlando

Os leitores poderão aqui encontrar um breve capítulo de um estudo publicado pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé em 26 de junho de 1976. Responde a uma questão que tem uma certa importância: será que Jesus quando fala do demónio é condicionado pela cultura do seu tempo?

Este documento não se encontra em língua portuguesa. Esta é uma tradução.
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19750626_fede-cristiana-demonologia_sp.html

A Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, encarregou um especialista afim de preparar este estudo, que é altamente recomendado sendo uma base segura para reafirmar o ensinamento do Magistério sobre o tema “Fé e demonologia cristã”.

Ao longo dos séculos, a Igreja tem rejeitado as diversas formas de superstição, a preocupação excessiva sobre Satanás e seus demónios, os diferentes tipos de culto e o mórbido apego a esses espíritos, por isso seria muito injusto dizer que o cristianismo fez de Satanás, o argumento favorito da sua pregação, esquecendo-se do senhorio universal de Cristo e transformando a Boa Nova do Senhor ressuscitado numa mensagem de terror.

Como São João Crisóstomo declarou aos cristãos de Antioquia: “Não é para mim nenhum prazer falar do diabo, mas a doutrina sugere que esta questão será para muito útil para vós”. Na verdade, seria um erro fatal comportar-se como se, considerando a história já resolvida, a redenção tivesse atingido todos os seus efeitos, sem termos a necessidade de nos empenhar na luta de que fala o Novo Testamento e os mestres da vida espiritual.

O NOVO TESTAMENTO E SEU CONTEXTO

Antes de recordar com qual independência de espírito, Jesus agiu em todos os momentos da Sua vida perante às opiniões de seu tempo, é importante notar que nem todos os seus contemporâneos tinham a mesma crença em relação aos anjos e aos demónios, isto é, não era uma crença comum, da qual o próprio Jesus dependeria.

Para nos convencermos disso, basta lembrar a grande controvérsia que São Paulo provocou entre os membros do Sinédrio, onde de facto se afirma que os saduceus não admitiam, contra a opinião dos fariseus, a ressurreição, nem a existência dos anjos, nem dos espíritos: «os saduceus negam a ressurreição, assim como a existência dos anjos e dos espíritos, enquanto os fariseus ensinam publicamente o contrário» (Actos 23,8). Os saduceus não acreditavam na ressurreição, nem na existência dos anjos e dos demónios. Portanto, relativamente a Satanás, aos demónios e aos anjos, a opinião dos contemporâneos de Jesus não era uniforme, parece estar dividida em duas concepções diametralmente opostas.

Como é, então, possível justificar a pretensão de que o próprio Jesus e, a Seu exemplo, os escritores do Novo Testamento, teriam assumido, sem qualquer esforço crítico, as ideias e as práticas do seu tempo? Certamente, que Cristo e os Apóstolos pertenciam a seu tempo e compartilhavam a mesma cultura, mas Jesus, em virtude de sua natureza divina e da revelação divina que ele veio comunicar, transcendeu a cultura do seu meio e do seu tempo, escapou a sua pressão. Basta ler com atenção o Sermão da Montanha (Mt 5) para nos convencermos da Sua grande liberdade de espírito, no que diz respeito a tradição dos antigos.

Jesus, ao revelar o significado da redenção, com certeza conhecia os fariseus, que, como Ele, acreditavam no mundo futuro, na alma, no espírito e na ressurreição, e também não ignorava os saduceus, que não suportavam tais crenças. Assim, quando os fariseus O acusaram de expulsar demónios com a ajuda de Belzebú, príncipe dos demónios (Mt 12,22-32), Jesus poderia ter superado a dificuldade alinhando-se com os saduceus, mas não o fez, porque ao fazer isso, contradizia a Sua missão. Portanto, Jesus, sem negar a crença dos fariseus sobre a existência dos espíritos e sobre a ressurreição, distanciou-se deles, não menos que dos saduceus.

Afirmar, portanto, aos nossos dias, que o discurso de Jesus sobre Satanás expressa a doutrina da cultura do seu tempo, e que portanto, hoje, não seja importante para a fé universal da Igreja, aparece como uma opinião baseada em informações incompletas, quer sobre a cultura daquele tempo, quer sobre a personalidade de Jesus. Devemos concluir dizendo que, se Jesus utilizou esta linguagem, e, sobretudo, se a traduziu em prática durante o seu ministério, é porque expressava uma doutrina necessária para a nossa salvação.

O testemunho pessoal de Jesus
As principais libertações de obsessos feitas por Jesus Cristo encontram-se em momentos decisivos do Seu ministério. Os exorcismos colocavam e direcionavam a questão sobre a pessoa e a missão de Jesus, como o provam suficientemente as reações: «Que tens a ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?» (Mt 8,29); «Mas, se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demónios, então chegou até vós o Reino de Deus» (Mt 12,28).

Sem nunca colocar Satanás no centro do Evangelho, Jesus falou dele em momentos cruciais e, obviamente, com declarações importantes. Em primeiro lugar, logo no começou do Seu ministério público, aceitando, ser tentado pelo diabo no deserto: o relato de Marcos, mesmo na sua sobriedade, é tão decisivo como os relatos de Mateus e de Lucas (Mc 1,12-13; Mt 4,1-11; Lc 4,14-15). Contra este adversário, Ele advertiu os discípulos no Sermão da Montanha e na oração que Ele ensinou, o Pai Nosso.

«Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal.» (Mt 5,37); «e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Mal» (Mt 6,13)

Os Padres da Igreja, como por exemplo Santo Ambrósio, Cassiano e Tertuliano, afirmam que o último pedido do Pai Nosso, deve ser entendido de forma pessoal, isto é «livra-nos do Maligno». (Esta mesma interpretação encontra-se no Catecismo da Igreja Católica, 2850)

Nas parábolas, Jesus atribuiu a Satanás os obstáculos contra a Sua pregação (Mt 13,19), como é na parábola do joio semeado no campo (Mt 13,39). A Simão Pedro anunciou que “as portas do inferno” iriam tentar prevalecer sobre a Igreja (Mt 16,19), que Satanás iria averiguar a sua fé e a dos outros apóstolos (Lc 22,31). Na hora de sair do Cenáculo, Cristo declarou iminente vinda do “príncipe deste mundo” (Jo 14,30). No Getsêmani, quando foi preso pelos soldados, afirmou que tinha chegado a hora do “poder das trevas” (Lc 22,53), embora Ele sabia e já tinha declarado no Cenáculo, que “o príncipe deste mundo já foi julgado” (Jo 16,11).

Esses factos e as declarações, bem enquadrados, repetidos e concordantes, não são casuais e não é possível tratá-los como dados que devem ser desmistificados ou fabulosos. Se assim fossem, teríamos que admitir que naquelas horas a consciência crítica de Jesus, cuja lucidez e autocontrole são evidentes para os juízes, estava presa por fantasmas ilusórios e que, portanto, as suas palavras não podiam ter qualquer certeza, o que seria, em aberto contraste com impressão daqueles que, pela primeira vez, ouviram e leram os Evangelhos. Impõe-se, portanto, uma conclusão: Satanás, a quem Jesus tinha enfrentado com seus exorcismos, a quem tinha encontrado no deserto e na paixão, não pode ser considerado um mero produto da capacidade humana de inventar fábulas ou de encarnar certas ideias, um vestígio, nem linguagem cultural primitiva aberrante.