A Ressurreição de Jesus

A Ressurreição de Jesus

A vida e o ministério de Jesus não culminam com a morte, tal como a qualquer ser humano, mas com a Sua ressurreição. Um facto que transcende a história.

Da Páscoa de Jesus data o envio dos Apóstolos para proclamarem o que “tinham visto e ouvido” e congregarem na unidade todos os discípulos que viriam a aderir à sua pregação.

A ressurreição proporcionou uma releitura das palavras e gestos de Jesus. S. Paulo assume radicalmente a ressurreição como fundamento da fé, da esperança e do agir cristão: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também vazia a fé que tendes… Permaneceis nos vossos pecados… Se a nossa esperança em Cristo é só para esta vida, somos os mais infelizes dos homens” (1Cor 15, 14-19).

“A Ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento, pregada como parte essencial do mistério pascal, ao mesmo tempo que a cruz: Cristo ressuscitou dos mortos. Por Sua morte venceu a morte, e aos mortos deu vida.” – sintetiza o Catecismo da Igreja Católica (638)

A ressurreição de Jesus é um facto histórico não como fenómeno comprovado mas como realidade de fé intuída a partir de acontecimentos que deixaram as suas marcas históricas: o sepulcro vazio e as aparições do ressuscitado.

A morte de Jesus e o anúncio da Sua ressurreição são facto historicamente comprováveis. A ressurreição enquanto tal “é o milagre” que foge a qualquer investigação histórica. Testemunha o começo de uma vida nova a partir da morte. Não é objeto do conhecimento histórico, mas é uma verdade de fé.

O facto do túmulo vazio é verificado com espanto por pessoas que não o esperavam e não encontra outra explicação senão a dada por aqueles que dizem tê-lo visto, num estado completamente diferente da sua existência terrena que denominaram de ressurreição. As testemunhas são numerosas. Identificam-no como a mesma pessoa de Jesus que convivera com eles antes da Sua crucifixão. S. Paulo dá uma lista que abrange vários tipos de pessoas em circunstâncias variadas: Pedro, os doze, “mais de quinhentos irmãos de uma só vez”, Tiago, todos os Apóstolos e ele próprio (1Cor 15, 5-8). Mostram-se incrédulas e exigem provas como Tomé (Jo 20, 24-29), com atitudes contrárias a qualquer predisposição para acreditar que Jesus pudesse voltar à vida.

 A ressurreição não é revivescência, simples regresso à vida anterior como aconteceu com Lázaro e a filha de Jairo. Voltaram a morrer. Não é a imortalidade da alma com incorporação ao grande todo espiritual de que se separou, quando tomou um corpo.

Não é reincarnação ou ciclo de renascimentos pelos quais a alma vai regressando à existência terrena, transmigrando de um corpo para outro até completar a sua purificação. A ressurreição significa que a própria pessoa de Jesus Cristo alcançou a sua condição divina para lá do tempo e do espaço. “A ressurreição indica que Jesus foi restituído com a Sua humanidade à vida gloriosa, plena e imortal de Deus. Por isso o Seu corpo ressuscitado, embora mantenha a Sua identidade e realidade humana, foi tornado capaz de viver eternamente em Deus.”(JCSH, p. 103). A ressurreição é “passagem a uma vida nova” que não se limita a Jesus. “Anuncia uma humanidade nova, uma humanidade que estava já presente nos desígnios de Deus, mas que só a ressurreição de Cristo inaugurou, realmente.” (Card. Daniélou, o. c., p. 22)                                                                     
A ressurreição é objeto de fé e abre simultaneamente os horizontes da fé para revelar a plenitude da mensagem de Cristo. Na ressurreição se confirma a divindade de Jesus, se manifesta a verdade de tudo o que Jesus fez e ensinou, se consolida e explicita a revelação do Mistério Trinitário, do Deus Pai, Filho e Espírito Santo (CIC, 648-653).

Da ressurreição data o envio de todo e cada um dos discípulos para a missão, surge a Igreja com a finalidade de anunciar e dar eficácia, através de todos os tempos e lugares, à Boa-Nova da Salvação consolidada precisamente na ressurreição de Cristo.

A humanidade é reconciliada com Deus. Pelo mistério pascal somos justificados, “pela Sua morte, Cristo liberta-nos do pecado; pela Sua Ressurreição, abre-nos o acesso a uma nova vida”(CIC, 654). O perdão de Deus torna-se uma possibilidade contínua confiada aos discípulos com a assistência do Espírito: (Jo 20, 22-23).

A Eucaristia é memorial contínuo da morte e ressurreição de Cristo, experiência do encontro com Ele e participação da Sua vida. Assim o testemunha S. Paulo: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha” (1 Cor 11, 26

A vida nova instaurada pela ressurreição de Cristo é partilhada por aqueles que n’Ele são batizados e concretizada numa prática conforme à Palavra do Evangelho, na esperança da manifestação da plenitude dessa vida, na comunhão com Deus, na ressurreição futura. “A ressurreição batismal não tem sentido senão ligada à ressurreição de Cristo. Mas ela perde o seu sentido se não está voltada para a ressurreição escatológica.” Card. Daniélou, (o. c., p. 62)

Texto: Octávio Morgadinho – Jornal da Família abril 2017

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